sábado, 23 de junho de 2018

Anunciação

Soneto à minha primeira filha

Num quase despertar, veio a confirmação angélica
Do alívio sereno de minha alma­­­­

A cada mitose de sua perfeita métrica
Desabrocha lindamente minha Agripalma



Remis, vós, todos os meus sacrilégios
Concentrados integralmente em seu arvorecer

De todos o maior dos privilégios
Transubstanciando visceralmente o meu ser



És a flor em nosso jardim
Com o mais nitente dos verticilos

Ó Deus, a melhor parte de mim



“ut omnia bene agant”, minha menina
Vai dar tudo certo, disse o anjo em meu idílio

Anunciando a fúlgura presença de Angelina...



29 de dezembro de 2017

sábado, 16 de setembro de 2017

Luta inglória II

Qual é o peso da dor
na longa madrugada?
com olhos atentos
vencido.

Nem particípio
nem passado

finito.

23/03/2017

Luta inglória

O mundo gira
e não cansa de
girar

Somos todos iguais a buscar
mudanças
e nada mais.

06/07/2015

Conotações

Nem tudo que é visto
é percebido
sentido

Há muito que dizer e ser lido
o que seriam dos propósitos só com os ritos
Nada.

...um vazio de decorações.

03/01/2017

sábado, 9 de setembro de 2017

Dualismo

À maravilhosa e intensa vida curta de meu filho...


Voz, vento e violão...
choro, aperto na garganta
não sei se sim ou se não
a dor é a única que acalanta

já não sinto o chão; nem o céu
no pior desatino a exprimir
Do mais esperado amor indelével
Da mais sentida saudade de ti

Teima a sair a voz
dos enlaces da dor
do momento mais atroz

cruel dúvida a ansiar pela paz
de perder o genuíno amor
de sentir a presença de meu filho, Thomás.

09/08/2017



quarta-feira, 17 de julho de 2013

Como um sonho de Dali...

Insônia

Não sei o que há aqui dentro
nem sei também o que dizer
palavras se registram numa escrita
quase automática ali

aqui ou qualquer outro lugar
os pensamentos permanecem
mudam as roupas e o caráter
mas os sonhos ficam os mesmos

os meios justificam tudo
é assim e pronto
agir é melhor que pensar

perdi-me nos sonhos e nos pensamentos
o caráter perdeu-se no meio
no centro de toda a saudade.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Nossa história.




Era um simples quintal. Espaço frequentado por mim desde a tenra infância. Nem sempre visto. Chegava de vez em quando sozinho e apenas me deparava com o espaço. Vazio. Cercado de verdes flamujantes e brisa quente do subúrbio. Outras vezes, seguia os passos de minha vó para vê-la lavar as roupas no tanque de concreto, com suas mãos enjilhadas debaixo d'água fria. Acreditava ser dela um ajudante para dependurar as vestes no varal. Ela sabia valorizar esse quase ritual cotidiano com singular maestria. Cresci acreditando. Momentos e metas foram surgindo e os caminhos já não levavam mais para o quintal. A visita resumia-se num patético compromisso social: sua bênção, vó. Queria voar. Perdidamente em estranhos ninhos. E o quintal lá permanecia. Com os mesmos verdes; brisas e o tanque de concreto.

O tempo trota impiedosamente. Além do dorso da mão; o rosto datava as décadas de vida. Elevava-se cada vez mais a voz para cumprir aquele estéril compromisso. As suas pernas não me levavam mais para o quintal; mas o seu olhar para o reencontro do verdadeiro ninho. Mesmo, infelizmente, rareando as visitas, quando possível, pousava no ninho.

O ninho encolhia-se inexoravelmente a cada segundo. Os pés teimavam com a mente. Os olhos; com a visão. No reencontro, bastava um abraço. A quota de carinho recheada de estórias (por vezes deliciosamente repetidas) era o alpiste que me alimentava. Voava porque me alimentava. Retornava ao ninho não para de novo voar; mas sim para nutrir-me.

Somos mais do que números de série ou uma definição nominal. Somos história. Não há como seguir sem o ato de planejá-lo. Vejo e ouço minha vó não só naquele quintal. Sinto-a dentro de mim; no ninho aqui dentro plantado, que eu possa sentir em qualquer lugar.

O destino é opcional; o quintal, não.